Sandra Gonzaga

Sobrinha do artista, idealizadora do projeto de homenagem ao centenário de Jorge Costa Pinto 

Pai Jojó, o segundo Pai.

 

Sobre o pintor, a exposição da sua obra será suficiente para tudo dizer. Mais do que as palavras, a apreciação do Belo encanta a alma.

Por isso, quero reverenciar o Pai, o segundo Pai. Muitas pessoas devem conhecer a experiência de adotar como parente um amigo não nascido do seu próprio sangue – alguns “irmãos” por escolha podem ser mais valiosos do que os próprios irmãos biológicos. Possuo a bênção singular, nesta vida, de ter tido dois Pais e duas Mães. Tia Vera e Tio Jorge casaram-se no mesmo ano em que nasci e, durante sete anos, não tiveram filhos. O carinho e o amor que recebi deles neste intervalo de tempo e durante todos os anos em que estiveram presentes na minha história de vida, estão até hoje vivos e pulsantes no meu coração. Meu Pai biológico, personagem extraordinária dessa mesma história, era um médico extremamente ocupado, entre o Laboratório de Análises Clínicas e o Serviço de Transfusão de Sangue. Embora tenha deixado marcas indeléveis na minha infância, a sua vida laboriosa deixava-lhe pouca oportunidade para o contato mais frequente, no que foi substituído por Pai Jojó. Éramos vizinhos, moradores da mesma rua e foi em sua casa que construí grande parte do meu mundo infantil. Enquanto ele trabalhava no seu gabinete do segundo andar, passei muitas horas lendo o Tesouro da Juventude e apreciando outros livros que ele mantinha nas prateleiras do primeiro andar, assim como desfrutei da obra musical que ele foi adquirindo após ter comprado a sua vitrola – um móvel imenso, com a figura característica de um cão admirando um gramofone. Assim conheci as valsas de Strauss e outras joias da composição internacional; até hoje, meu coração bate mais forte quando escuto os acordes da Viúva Alegre de Franz Lehár! Ali, naquele ambiente, estava se moldando a garota estudiosa, marco decisivo da presente história de vida!

Ainda menina, acompanhei, a bordo do carro recém-adquirido, as excursão realizadas em busca das paisagens ideais para as suas primeiras aquarelas – Ondina, Chega Negro, Jardim de Alá, cenários ainda virgens, onde a força do mar e a dança das palhas dos coqueiros imperavam, ainda não maculados pela intervenção humana por meio do concreto e do asfalto. O centro da Cidade Antiga, com seus casarios, suas ladeiras tortuosas, sua pavimentação de pedras, logo também se tornou centro do seu interesse, como poderá ser apreciado numa fase peculiar do seu trabalho.

Na década de 1960, já casada e mãe de filhos, estava com ele quase que diariamente, acompanhando, mais uma vez, cada pincelada que ele colocava num novo quadro. Assim, pude assistir diversas temáticas se manifestando – a fase do vermelho, a fase do dique, a fase das dunas, todas elas fruto da determinação e do seu talento interior. Sempre me perguntei o que faz um artista se expressar para o mundo externo, quanto da sua visão de mundo está ali expressa. Pai Jojó manifestou para mim – porque as percepções humanas variam – o homem doce, cordato, cordial, devotado ao seu trabalho e à sua família. Nunca o vi irritado, assim como presenciei a sua intensa hesitação ao ser confrontado com a iminência de apresentação de seus trabalhos ao público. Não se sentia pronto, desejava guardar suas obras para a contemplação restrita de alguns familiares e amigos! Como foi difícil para ele assumir publicamente o papel de pintor!

No ano em que celebramos os cem anos do seu nascimento, nada mais justo que entreguemos ao público da sua terra, uma exposição virtual da sua obra. Muitos dos seus quadros estão guardados na nossa família, na qualidade de acervo particular precioso. Muitos outros foram localizados em Salvador, embora saibamos que esta coleção poderá ainda ser enriquecida com o aporte de obras que se encontram em outros locais do Brasil.

Arthur Jorge Costa Pinto

Filho do artista

Agosto 1983

JORGE, meu Pai.

 

Chegou o momento e a oportunidade de escrever sobre seu trabalho. A tarefa é difícil, porém digna de uma manifestação do seu filho, que sempre soube admirá-lo como artista e ser humano.

 

Lembro-me, na minha infância, das suas horas em que conciliava a advocacia com sua maior vocação, que sempre foi a pintura. Sei que foi um trabalho sério, persistente, com grande disciplina; incorporado ao seu grande talento, procurou algo que conseguiu ao longo do tempo encontrar, assim como fazem os que levam para além da eternidade o mais difícil, uma caligrafia própria, ou melhor, um cunho pessoal. Sua obra é intransferível, forte como sua personalidade. Pergunto: por que continua a assinar os seus quadros?

Todas as suas fases são marcantes, começando pelo desenho, usando depois a aquarela como poucos conseguiram fazê-lo, assegurando assim uma forte base para manipular o acrílico, que alguns ousam desafiar, mas cujos efeitos, a meu ver, poucos conseguem explorar.

Na utilização das cores conseguiu dominar todas, sem nunca se prender a uma sistemática. Iniciando pelo amarelo, atingiu a vibração de sua luminosidade; o verde, bem colocado nas suas composições, demonstra ser você um grande admirador das árvores e do campo; o vermelho, bem agressivo, onde você extravasou seu ímpeto de homem puro; o azul, colorido silencioso e calmo, de difícil penetração, como sua mente quando está criando, expressa o céu e o mar da Bahia, cheios de mistérios e nuances; e, dentre muitas, o branco, uma aplicação perigosa, que aparece em seus quadros com muita pureza e equilíbrio.

 

Os elementos em suas paisagens são bem projetados e harmoniosos, denotando a consciência de quem sabe criar: casarios bem estruturados e com perspectivas que deixam em muitos arquitetos uma dúvida íntima; ruas e ladeiras românticas, telhados salientes, rampas escorregadias, estacas firmes, barcos num repouso de quem nunca enfrentou tempestade; seu mar sereno transmite a paz, as figuras humanas, a humildade e as pedras, a solidez da sua família.

Você conseguiu o poder de recriar, pois Deus é o Criador, sem fugir da harmonia das formas bem delineadas e compactas, dimensionadas em seu espaço bastante elaborado. Conseguiu, enfim, ser um pintor que sabe dominar a técnica do pincel, sem precisar recorrer a instrumentos ou artifícios que comprometem a obra de um qualificado pintor profissional.

 

Desejo que seu progresso, aliado ao sucesso, sejam uma constante em sua vida.

Ronaldo Costa Pinto

Filho do artista

Setembro 2016

Como filho caçula e temporão, ele teve comigo uma relação diferente daquela que teve com meu irmão, Arthur Jorge,  sete anos mais velho.

 

Hoje, pessoas que o conheceram, vêm em mim algumas características da personalidade de meu pai, no meu jeito de me relacionar socialmente e contar casos, acontecimentos.

 

Na verdade a vida física acaba, e ficam tão somente as memórias dos bons momentos e das características marcantes de nossos entes queridos.

 

Ficou dele​,​ em minha memória​,​ a sua personalidade encantadora, cativante e seu jeito atencioso, respeitoso e cuidadoso ao lidar com as pessoas. Sempre agradável e sobretudo muito gentil com todos, indiscriminadamente.

 

Também aprendi com ele o amor pelas Artes Plásticas. Desde muito criança frequentei com ele os vernissages, estúdios ​ de artistas e, sobretudo, durante os anos 60, o acompanhei em sessões de pintura, quando retratava e recriava, em seu estilo peculiar, as paisagens urbanas e litorâneas de Salvador.

 

Presenciei com isso a sua paixão por nossa cidade natal. Em gestos emocionados e firmes trazia para sua obra a luz e a vibração desta cidade, tão reconhecida pelos críticos e pelos admiradores de sua obra. Nestas sessões de pintura ele me dava sempre um pedaço de cartolina, para que eu também desenhasse algo usando minha caixa de lápis de cor ou a palheta de aquarela infantil. Quando estacionava seu carro diante do cenário que queria retratar, me entregava a cartolina com uma mesma frase em italiano que nunca esqueci: " cartolina para il bambino".

 

Além de pai ele foi o meu mestre de pintura.

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Hoje tenho como hobby  a pintura, e dediquei a ele a introdução do meu blog​,​ onde exponho meus quadros e as exposições que já realizei: https://ronaldocostapinto.wordpress.com/

 

Do meu pai, permanecerá viva por muitas gerações a sua maravilhosa obra artística.

Julieta Isensée

Jornalista, Jornal A Tarde

Junho 1991

Costa Pinto é um sobrenome que, na Bahia, remonta a uma época em que as famílias tradicionais do estado representavam, sobretudo, a expressão máxima de seus valores culturais, através da educação primeiro-mundista de seus filhos, então versados no conhecimento humanístico, nas artes da música e da pintura, ao lado da literatura e das leis, carreiras que lhes eram incutidas desde cedo, entre as paredes dos velhos sobrados do Corredor da Vitória, nobre região onde vieram a se instalar.

Costa Pinto é, também, o sobrenome famoso de um não menos famoso, em suas hostes, artista plástico baiano, que sem dúvida teria se tornado um dos grandes advogados da terra caso a pintura não lhe tivesse chamado a serviço. Bien-né, como antigamente se dizia dos bem nascidos, Jorge Costa Pinto é o abençoado com a sensibilidade da qual se fala e o autor de belíssimos trabalhos de hoje e sempre. Sua temática favorita, as paisagens do litoral, o qual percorreu com o mestre Alberto Valença; sua técnica, a aquarela, à base de tintas e papeis importados, diferencial de qualidade. A mesma que está à mostra, na NR Galeria de Arte, no Shopping Iguatemi, numa homenagem a esse artista, eterno em seu tempo.

As 25 aquarelas inéditas em exposição são da década de 50. Por motivos seus, Jorge Costa Pinto absteve-se de torná-las públicas durante trinta e tantos, quarenta anos. Mas o destino mais uma vez bateu à porta do iniciado pelas mãos de Adam Firnekaes, então diretor do ICBA, através de alguém que lhe arrancou a “capacidade mineira” de trabalho. As aquarelas que até então pertenciam somente a seus olhos, agora terão momentos de bem comum, enquanto vistas nas paredes da galeria.

Expressionais, construtivismo geométrico são denominações que rotulam o trabalho do artista, baseado em recriações das paisagens baianas. As aquarelas são precursoras da fase à qual ele viria a se dedicar em seguida – a pintura com acrílico. Como dado técnico, vale observar que o papel utilizado é o alemão Scholler.

Dos bancos da Faculdade de Direito, Jorge Costa Pinto guindou-se aos da Escola Bahiana de Pintura, onde, aos cuidados do mestre Alberto Valença, sagrou-se artista, dono de incomensurável herança humanística, legado público.

José Augusto Berbert

Jornalista, Jornal A Tarde

Setembro 1985

Se na Bahia há 26 médicos-pintores, como foi mostrado recentemente numa reportagem, há apenas um advogado-pintor – Jorge Costa Pinto.

 

“Hoje sou o oposto”, diz ele. “Sou um pintor-advogado”.

É esta a diferença entre os médicos-pintores e o pintor-advogado. Todos os médicos que pintam continuam como médicos, exercendo suas profissões. O único bacharel em Direito não resistiu à sua vocação artística, desistiu da profissão e se tornou apenas pintor. Com isso foi aceito na comunidade dos artistas baianos como um igual, porque a maioria não gosta de amadores.

Membro de tradicional família baiana, Jorge Costa Pinto confessa que sempre desejou ser pintor, o que não era fácil no seu tempo. Um rapaz de boa família tinha de estudar curso superior, ter um diploma. Seguiu a tradição, mas sempre achava um meio de pintar, de aprender. Paralelamente ao curso de Direito, na então Faculdade de Direito, antes da criação da Universidade, participou de um curso livre de pintura na Escola de Belas Artes da Bahia. Ali aperfeiçoou o que sabia quase por instinto e hoje agradece muito a oportunidade que teve na Escola de Belas Artes. Não pelo que aprendeu ou lhe ensinaram, mas porque se aproximou muito do pintor Alberto Valença, que considera um dos maiores impressionistas que a Bahia possuiu em todos os tempos.

Entretanto, terminou o curso de Direito e começou a advogar. Triunfou na profissão e se tornou um advogado de prestígio, com larga clientela, tendo como clientes fixos muitos sindicatos e empresas, sempre ocupado defendendo os direitos dos seus constituintes. Porém, a vontade de pintar não o deixava. Em 1949, saía andando pelas ruas, ao lado de Alberto Valença, pintando guaches e aquarelas, colocando cavaletes e telas nos passeios, formando um grupo de curiosos em torno. Aí sim, diz ele, é que foi se aperfeiçoando e aprendendo as combinações de cores e a desenvolver seu estilo. Tudo o que fazia era um hobby, por diversão, porque sua profissão era a advocacia e, naquele tempo, se alguém dissesse que a deixaria para ser pintor, acharia o outro maluco.

Jorge Costa Pinto conta que quem realmente o lançou como artista foi o médico, também pintor, Dr. Humberto Peixoto. Em 1965, Humberto foi visitá-lo e gostou dos quadros que tinha em casa, sem maiores pretensões. Achou que tinham unidade e estilo, aconselhando-o a fazer uma exposição. Achou graça no amigo e não aceitou.

Humberto Peixoto insistiu e agiu por conta própria. Uma manhã, o médico-pintor apareceu em sua casa com o então diretor do Instituto Cultural Brasil-Alemanha, Adam Firnekaes, uma autoridade em pintura, para que este desse sua opinião de técnico sobre os seus quadros. O alemão também gostou, principalmente porque eles tinham estilo próprio e disse que ia patrocinar a exposição no ICBA, só para testá-lo de público.

 

Jorge Costa Pinto cedeu, ainda meio escabreado e, no lançamento, apareceram muitos amigos e pintores. O consagrado pintor e médico Mirabeau Sampaio também foi ver os quadros e mostrou-se tão surpreendido que, de lá mesmo, telefonou para Jorge Amado, seu amigo pessoal, insistindo para que fosse ver a exposição. Jorge Amado apareceu no dia seguinte e não poupou elogios, aconselhando-o a que fizesse uma exposição no sul do país, onde os críticos nacionais dariam suas opiniões, o que repercutiria em todo o país. Como Costa Pinto não tivesse conhecimento algum com galerias, nem aqui nem no sul do país, o próprio Jorge Amado – não é à toa que o chamam de “Irmã Dulce das artes e da literatura”, pelo apoio que dá a todos os que dele necessitam – prontificou-se a conseguir a exposição, o que se deu na Galeria Atrium, uma das melhores do país. A Atrium aceitou expor 20 de seus quadros e Jorge Amado escreveu a apresentação.

O sucesso foi grande e as críticas as mais favoráveis. Daí em diante, as portas estavam abertas para o pintor e o advogado foi ficando em segundo plano. Dizem que não há nada melhor do que se fazer o que se gosta e quando se faz o que se deseja, o trabalho vira diversão.

Jorge Costa Pinto foi cada vez mais se dedicando à pintura; seus quadros começaram a ser procurados por colecionadores e por galerias que disputavam o privilégio de fazer suas exposições. Em 1983, deixou definitivamente a advocacia para ser apenas pintor. É caso único no Brasil. E não se arrependeu disso um só instante, pelo contrário, está muito satisfeito e feliz. Já realizou exposições individuais em todo o Brasil e exposições coletivas até no estrangeiro. Tem quadros em vários museus e seu nome é sempre citado quando se escreve sobre os pintores contemporâneos brasileiros, sendo um dos que têm mais destaque na Bahia.

Na sua nova residência, na rua Macapá, em Ondina, tem um belo atelier, o que não tinha antes quando pintava em salas improvisadas. Considera-se apenas um pintor e não quer outra coisa. O que era hobby virou profissão. Com o sucesso que sempre mereceu.

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